Riscos Psicossociais: A Nova Descoberta dos Ergonomistas Superficiais?
- Eduardo Ferro dos Santos
- há 12 minutos
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De repente, os riscos psicossociais se tornaram a grande novidade no Brasil. Com a nova legislação que entra em vigor em maio, muitos profissionais começam a falar do tema como se fosse um conceito revolucionário, algo inédito que precisa ser inserido nas práticas de segurança e saúde no trabalho. Mas para quem realmente entende de Ergonomia, essa empolgação tardia soa, no mínimo, curiosa.
A Ergonomia, desde sua concepção, sempre tratou dos fatores psicossociais. O trabalho humano não pode ser reduzido a posturas, força física e movimentos repetitivos – ele é também feito de demandas cognitivas, emocionais, sociais e organizacionais. Quando um ergonomista sério conduz uma Análise Ergonômica do Trabalho, ele não pode ignorar aspectos como estresse ocupacional, carga mental, autonomia, relações interpessoais, satisfação no trabalho, dentre outros fatores psicossociais. Se esses fatores agora estão sendo “descobertos” por alguns profissionais, a pergunta inevitável é: o que eles estavam analisando esse tempo todo?
A resposta é incômoda, mas evidente. Muitos ergonomistas têm se limitado a avaliações superficiais, focadas apenas no visível e no mensurável – forças, alcances, frequências, ângulos. Mas a Ergonomia sempre foi mais do que isso. Ignorar os riscos psicossociais até agora não foi uma falha da legislação, mas sim de profissionais que tratavam a Ergonomia como uma mera aplicação de checklists e normativas, sem compreender sua essência interdisciplinar (e até transdisciplinar).
Agora que a legislação obriga a análise desses fatores, muitos parecem estar correndo para se atualizar, tentando entender um conceito que deveria ser inerente ao seu trabalho há anos. Isso nos leva a um questionamento inevitável: quantas análises ergonômicas foram feitas sem considerar o impacto da organização do trabalho na saúde mental dos trabalhadores? Quantos relatórios negligenciaram o peso do estresse, da sobrecarga cognitiva e das relações interpessoais?
A Ergonomia nunca foi apenas biomecânica. Quem só percebeu isso agora precisa refletir se realmente estava praticando Ergonomia de fato – ou se apenas cumpria tabelas e medições sem compreender a complexidade do trabalho humano. O risco psicossocial não é uma novidade. A única novidade é que, agora, ninguém mais poderá fingir que ele não existe.
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