Ergologia: uma alternativa para estudar a fundo os problemas contemporâneos do trabalho
- Eduardo Ferro dos Santos
- há 8 minutos
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Vivemos um momento crítico nas relações de trabalho. Pressões por produtividade, transformações digitais, precarização, esvaziamento de sentido, adoecimento mental. A lista de problemas cresce na mesma velocidade em que se aplicam soluções tecnocráticas e superficiais. Ainda mais diante da tão falada inserção de riscos psicossociais na legislação.
Nesse cenário, surge uma provocação necessária: Será que é a ergonomia a ciência que pode nos ajudar a compreender (e transformar) o trabalho contemporâneo?
Ou talvez seja hora de irmos além?
Não só devemos nos atentarmos às normas técnicas, mas também do que a ciência nos apresenta.
Você já ouviu falar de ergologia?
É um conceito mais científico do que técnico, e eu vou te explicar.
Ergonomia
A palavra ergonomia vem do grego, érgon (trabalho, obra) e nómos (norma, lei, regra). Logo, ergonomia significa literalmente “as leis do trabalho” ou “a norma do trabalho”.
O termo foi cunhado em 1857 pelo polímata polonês Wojciech Jastrzębowski, em um artigo intitulado “Esboço de ergonomia, ou ciência do trabalho, baseada nas verdades tiradas da ciência da natureza” (Jastrzębowski, 1857). Mais tarde, durante e após a Segunda Guerra Mundial, a ergonomia ganhou força com influência da psicologia, fisiologia e engenharia (Murrel, 1965).
A ergonomia busca adaptar o trabalho ao ser humano, considerando suas capacidades físicas, cognitivas e organizacionais. É uma ciência aplicada que visa aumentar a segurança, eficiência e bem-estar no trabalho (Dul & Weerdmeester, 2008).
Ergologia
A palavra ergologia também tem origem grega, érgon (trabalho, obra), e logía (estudo, tratado, discurso racional). Logo, ergologia significa literalmente: “o estudo sobre o trabalho” ou “tratado sobre a obra humana”.
O termo foi sistematizado e desenvolvido como campo científico na França a partir da década de 1990 pelo filósofo Yves Schwartz, professor da Universidade de Provence. Schwartz se propôs a integrar contribuições da filosofia, das ciências humanas e das experiências de trabalhadores para construir uma abordagem crítica e ampliada sobre o trabalho (Schwartz, 2015).
A ergologia é uma ciência do trabalho que estuda a atividade real dos sujeitos, o debate de normas e a mobilização de saberes investidos. Ela parte da ideia de que o trabalho nunca se resume ao que está prescrito, sendo sempre um processo de criação, decisão e subjetivação (Durrive, 2015).
Talvez, mais do que nunca, precisamos refletir sobre estes conceitos.
Eu não estou trazendo mais uma terminologia para confundir ainda mais. Trata-se de um debate epistemológico, que é justamente a aplicação da ciência ao que está acontecendo com a prática, visto que é necessário estudar o conhecimento, as crenças, a verdade e a justificativa na formação do conhecimento.
É claro que dentro da ergonomia se faz ergologia (e vice versa), mas é importante sabermos que estes conceitos podem ser encontrados em diferentes expressões, já que o objetivo final é uma abordagem integral, que possa direcionar o olhar na saúde, segurança e desempenho do ser humano em suas relações de interação com sistemas, interfaceando com suas atividades de trabalho.
Sendo assim, estudar a ergonomia é uma estratégia de grande importância, mas isso às vezes pode nos limitar, pois a forma como muitas vezes é praticada, se limita ao prescrito, ao planejado, ao que é visível, mensurável, padronizável. Ela tende a transformar o trabalho em objeto técnico, como se pudesse ser completamente descrito, analisado e ajustado de fora.
Só que o trabalho real não cabe em manuais. O sofrimento psíquico, os conflitos éticos, os improvisos, os saberes informais, as decisões silenciosas, os desvios necessários e até as resistências, tudo isso escapa ao modelo tradicional de análise ergonômica. É isso que estamos vendo com os riscos psicossociais. Veja como há inclusive uma grande movimentação para criação de “manuais”, ou até de “check lists”. Será possível que relações interpessoais sejam quantificáveis?
A ergologia como ciência propõe outra abordagem. Ela não analisa o trabalho como um procedimento técnico a ser ajustado, mas como uma atividade humana (viva), construído por pessoas, atravessado por valores, dilemas, julgamentos e experiências (Schwartz et al, 2015). Ela nos convida a mergulhar naquilo que o trabalhador realmente faz, e não apenas naquilo que deveria fazer. Ela entende que o trabalho é sempre um ato de criação, de negociação com o real, de arbitrar o que vale a pena ser feito naquele momento, com os recursos disponíveis (Holz e Bianco, 2014). Na ergologia, não se busca apenas adaptar cadeiras ou reorganizar turnos, busca-se compreender o gesto vivo de trabalhar, com sua densidade ética, subjetiva e coletiva.
Mas por que esse debate é necessário agora?
A resposta é que os problemas do trabalho de hoje não são apenas posturais ou produtivos, eles são subjetivos, sociais, políticos, existenciais.
Não basta reorganizar tarefas, é preciso rediscutir o sentido do trabalho.
Não basta medir carga mental, é preciso entender o sofrimento ético e o conflito de valores.
Não basta implantar tecnologias, é preciso perguntar quem decide, quem participa, quem é silenciado.
A ergologia é uma ciência da escuta. Da escuta do trabalho real, da escuta do trabalhador como sujeito. É uma ciência que confia no saber da experiência e aposta no diálogo entre saberes técnicos, políticos e vividos.
Não se trata de substituir uma pela outra, mas de compreender que precisamos buscar a ciência, a “logia” e não a “nomia”, ou seja, o estudo e não as regras. Vamos continuar estudando a ergonomia, mas precisamos ir além. Enquanto a ergonomia nos ajuda a ajustar o sistema, a ergologia nos convida a revisar o próprio sistema à luz daquilo que o trabalhador vive, sofre e transforma em silêncio.
O trabalho contemporâneo exige mais do que ajustes técnicos. Ele exige análise crítica, escuta sensível, abertura ao imprevisível, e coragem para confrontar o que está mal estruturado. E para isso, este debate não é apenas útil, ele é necessário.
Estou aqui justamente estimulando o debate com muita coragem para confrontar o que está sendo mal estruturado. Novamente, a ideia não é separar os conceitos, e sim fazer com que os interessados em realmente estudar o trabalho, possam buscar fontes onde o trabalho é visto de forma integral, lógica, e não somente técnica.
Passamos a maior parte de nossas vidas no trabalho, então este assunto tem que ser muito bem estudado. Há um propósito para que o trabalho exista, e isso eu vou ainda aprofundar em um próximo artigo.
Espero que este texto tenha sido útil. Há ciência e muito estudo nisso.
Referências Citadas
DUL, Jan; WEERDMEESTER, Bernard. Ergonomics for beginners: a quick reference guide. CRC press, 2003.
DURRIVE, Louis. L'expérience des normes: comprendre l'activité humaine avec la démarche ergologique. Octarès éditions, 2015.
HOLZ, Edvalter Becker; BIANCO, Mônica de Fátima. Ergologia: uma abordagem possível para os estudos organizacionais sobre trabalho. Cadernos EBAPE. Br, v. 12, p. 494-512, 2014.
JASTRZĘBOWSKI, Wojciech Bogumił. Rys ergonomji czyli nauki o pracy opartej na prawdach poczerpniętych z nauki przyrody. Centralny Instytut Ochrony Pracy, 1997.
MURRELL, K. Ergonomics: Man in his working environment. Springer Science & Business Media, 2012.
SCHWARTZ, Yves. Knowing and studying the work. Trabalho & Educação, v. 24, n. 3, p. 83-89, 2015.
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